domingo, 1 de julho de 2012

Mei' sem jeito

─ Mas bah! Tu não te atreve nuuunca?
─ ...
─ Que lástima, tchê!

segunda-feira, 25 de junho de 2012

¿ amor !

é palavra mais feia
que as ruínas de Roma

é a fome
mais humilhante

por amor
já se foi à lua
a guerras
a fundos de poços
à casa do caralho

todo mundo sabe disso
mas continua
querendo se foder

sábado, 2 de junho de 2012

Filosofia de almanaque

ser

mais pássaro
menos pedra

mais ponte
menos muro

mais rio
menos lago

mais canto
menos grito

mais gente
menos mito

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Coleiras

na manhã do quinto dia
após tua partida
acordarei
como se nada demais
houvesse acontecido


distribuirei aos cães
nas ruas
as migalhas
que me legares
a fim de aprender com eles
a viver abanando o rabo
para quem me sorri
e a morder
quem rir de mim


demarcarei meus territórios
com mijo
ao pé dos postes
em pleno meio-dia


que venham me recolher
a carruagem
a carrocinha
o camburão

domingo, 27 de maio de 2012

meu papel nesse filme

não é dar margens
às tuas peripécias

e sim, te enlouquecer
sem oferecer
camisa-de-força
ou leito em hospício

a qualquer instante
te empurrar pro precipício
apertar o nó em tua garganta

            te esgano
            te enganas

não sou vilão
nem mocinho,
mas tenho a força
dos coadjuvantes
neste mundinho sem heróis

e agora, mané, quem poderá te defender?

"A caçada", de dona Lygia

Quando chegou em casa, atirou-se de bruços na cama e ficou de olhos escancarados, fundidos na escuridão. A voz tremida da velha parecia vir de dentro do travesseiro, uma voz sem corpo, metida em chinelas de lã: "Que seta? Não estou vendo nenhuma seta..." Misturando-se à voz, veio vindo o murmurejo das traças em meio de risadinhas. O algodão abafava as risadas que se entrelaçaram numa rede esverdinhada, compacta, apertando-se num tecido com manchas que escorreram até o limite da tarja. Viu-se enredado nos fios e quis fugir, mas a tarja o aprisionou nos seus braços. No fundo, lá no fundo do fosso, podia distinguir as serpentes enleadas num nó verde-negro. Apalpou o queixo. "Sou o caçador?" Mas ao invés da barba encontrou a viscosidade do sangue.

[Lygia Fagundes Telles. "A caçada". In: Antes do baile verde. São Paulo: Círculo do Livro, 1975. pp. 78-79]

sábado, 26 de maio de 2012

Muy amigo

— Te seguirei aonde quer você vá!
— E se eu resolver ir à merda?
Ixi! Aí você vai sozinho!

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Rosafulô

é
melhor
deixá-la
quieta

melhor
não deixá-la
puta

ela
tem língua
de mel
se tu beija
mas quando fala
(ou quando fela?)
é puro
fel

à boca pequena
chamam-na
impura
infiel

despeito?
talvez

melhor
deixá-la
nos seus desencantos
é