terça-feira, 7 de fevereiro de 2006


Misérias
Luciano Serafim
1 — Joel: os ontens, o hoje... E amanhã?

Acordou, tossindo. Não conseguiu abrir os olhos de imediato. A luz ofuscante da manhã ardia em suas retinas. Ouviu gritinhos, risadas de crianças; de certo jogando bola, no descampado ao redor. Sua cabeça ainda estava zonza, e de nada adiantaria praguejar contra a marvada pinga... Ela não adentrou à força em sua garganta. “Eu engoli... Eu... Virei os copos... Esvaziei todos, um a um...”, pensou, esmurrando o chão. Foda-se! Devia era ter comprado logo uma garrafa. Mas quis bancar o galã, bebericando com finesse, enquanto paquerava a morena banguelinha. Maior galinha! Acabou saindo com Efrásio. O perneta tinha tomado banho no abrigo. Deve ter sido isso. Ou, então, recebeu mais esmolas naquele dia. Porque a puta cobrava caro... Dez pilas. Um absurdo! Fofocam que ela não faz chupetinha e nem dá o rabicó. Suas cabeças latejam... A que mais incomoda é a de entre-pernas. Como escondê-la, agitada como está? Como poderia ele próprio esconder-se, se nem tem para onde ir?...

Enfim consegue abrir os olhos. O céu azul, límpido como nunca antes ele percebera (ou lembrava de ter visto), descortina-se até o horizonte, atrás dos telhados das casas ali em frente. Nenhuma nuvem dando bandeira... Nenhuma ameaça... A não ser os roncos de seu estômago e a ardência nos olhos e a lembrança de banguelinha... Bandida, cadelinha safada, sem-vergonha...
Sentado, recostado no tronco de uma árvore, respira fundo... Era cheiro de manga? Ou goiaba? Não... É delírio... Quer mesmo é comer jaca... As folhas balançam, ao ritmo da leve brisa morna do verão. Já é ano novo, não faz mais que duas semanas... Ou dois meses?... Que dia será agora?... Que ano?... Que mês?... Deve ser janeiro, ainda... Sim, porque ainda não passou o Carnaval... Recorda-se vividamente do foguetório estourando no céu... E da esmola que recebeu de um molequinho loiro, na frente de um parque de diversões... Ainda envergonha-se... Parece que tomou docinho das mãos de uma criança, como se diz por aí... Mas foi o guri quem lhe deu... De bom grado... Tinha olhinhos azuis, feito esse céu de hoje... Um anjo... O que o incomoda é o olhar de dó que recebeu, junto com a nota de cinco pilas e uma maçã do amor...

Se conseguisse uma maçã daquelas, vermelhona, doce... Com certeza a banguelinha se renderia aos seus encantos... Entregaria-se, sem restrições... Precisa descolar outros cincão... Deve custar isso, uma maçã do amor... Nome bonito prum doce... Maçã do amor... De amor... Será assim a maçã com que presenteará aquela mindinga putinha gostosa sem-vergonha na cara cínica... Caramba! Como vai sair assim, por aí, de troção duro, dando pinta sob a calça surrada? Aperta a cabeça do dragão, para ele adormecer... Tem vontade de mijar.

Levanta-se... Cambaleia!... Ressaca... Sempre... De tudo... Podia dormir de uma vez por todas... Eternamente... Mas isso seria morrer... Tem medo de fantasmas, e se já vagueia sem rumo nesse mundo, imagine no outro... Também não terá prumo nenhum, no além! Melhor dar um jeito de continuar vivo... Ainda que na merda, mas vivo! Embora seja igual a um zumbi... Pero bem vivo!

Mija atrás da árvore. O jorro quente respinga em seus dedos encardidos, molha sua unha encravada, pútrida. De onde virá tanto mijo, se há dias não bebe água e só tomou uns poucos goles de pinga? Talvez por isso esteja tão magro, secão daquele jeito... Um esqueleto, quase...
O dragão se acalmou, com a bexiga aliviada... Ele olha melhor as adjacências do descampado. As casas de gente “mais-ou-menos” na vida, suas janelas iguais a olhos felinos, recriminando-lhe a condição de mendicância... Uns garotos jogando bolas, mesmo... Por isso aquela gritaria dos infernos... Tem vontade de ir lá, dar uns cascudos nos cretinos... Mas se acovarda... Lembra do que uns moleques iguais àqueles fizeram com Aparício... Há quanto tempo?... Anos, talvez... Aparício foi internado, e desapareceu do hospital... Dizem que morreu... Tem medo de algum dia — ou noite! — esbarrar com Aparício, em algum beco ou esquina... Vai ter um ataque do coração!... Eita, Aparício... Que Deus te tenha em bom lugar, mano véio... Porque o Diabo não vai te querer no inferno!... Piadista descarado! Ferrado, fudidão, mas sabia cada piada que a gente ria de se mijar... Para que foi brigar com aquele bando de filhinhos-de-papai desocupados? Ficou todo quebrado... Os dentes amarelos rachados, sangrando em bicas... Os lábios roxos, lascados... Os olhos inchados sob as pálpebras, que se inflamaram rapidamente...

A algazarra dos garotos, comemorando um gol, o enraivece mais... Nunca teve bola... Nem sequer uma pipa... Brinquedo nenhum... Desde pequeno trabalhando numa carvoaria... Inferno quente, obscuro apesar do sol escaldante... Não quer lembrar... A sua mão, queimada, horrenda, já o obriga a recordar sempre que bate uma punheta... Quer esquecer... Apagar...

Arrisca um passo em direção à rua. Firma os pés e quase alcança a rua. Uma buzininha enche o ar... Olha para o descampado, e vê os garotos rodearem um picolezeiro, como uma ciranda de capetinhas, tirando picolés de todas as cores de dentro da barriga do carrinho... Sua boca enche-se de saliva, gosmenta e amarga... Engole-a, e o estômago volta a roncar... Logo ali embaixo há uma igreja... A missa da manhã deve estar terminando... Vai até lá... Quem sabe hoje alguém se apiede dele?

Pisa os paralelepípedos quentes... Que horas serão?... Nove?... Onze?... Tomara que não seja tarde e a missa ainda não tenha terminado... Caminha devagar, arrastando os pés. Se conseguisse umas moedinhas, alguns centavos, seria capaz até de rezar... Como era mesmo?... Pai Nosso que estás no céu... Seja... Como é mesmo?
*
Campo Grande, MS

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006

VERTENTE

a sós
maresia
nos
embriaga
nus

heresia
não
afogar-me
ao afagar-te

desaguar
em tua foz
naufragar
a voz
sob teus dilúvios

secar-te os fluidos
selar o açude
das minhas veias

não me acudas!

rio


choves
lágrimas
cachoeiras
decaídas
decantadas

velas ao vento
tremulam
trovejam

nossas âncoras
afundam
à borda
do poço

sossega
sou cego

nenhuma bússola
nos guiará
nesse oceano
insano

Luciano Serafim
Campo Grande, MS