quarta-feira, 22 de março de 2006


O TIRO

atingiu-lhe a cabeça por trás, junto à nuca. O guidom da bicicleta vacilou sob seu peso e então ele caiu. Viram outro rapaz, de arma em punho, evadir-se do local.

Seu Joaquim não presenciou o disparo, a queda. Ia do trabalho para casa, almoçar, e já encontrou o filho estirado no meio da rua, ao lado da bicicleta, com uma multidão ao redor. Ao ver aquilo, pareceu-lhe que o coração saltaria pela boca. Toda aquela gente ali não iria fazer nada? Agachou-se perto dele. Como pela manhã ao acordá-lo, tocou-lhe o ombro sem camisa. Mas o garoto não abriu os olhos. Continuou inerte. Estava morto. Seu sangue, derramado no asfalto.

Sentiu vontade de gritar, mandar todos os curiosos para o inferno. Não conseguiu dizer nada. Havia um nó apertado que doía em sua garganta, sufocando-o.

Escutou o barulho das viaturas se aproximando. Alguns policiais chegaram, abrindo passagem entre as pessoas.

— Afasta aí, gente! — berrava um deles. —  Afastem!

Vendo-o agachado perto do cadáver, perguntaram o que fazia. Não respondeu. Custava-lhe acreditar no que estava acontecendo. Quiseram tirá-lo dali à força. Reagiu, debatendo-se freneticamente:

— É meu filho, não é? É meu filho!

Soluçava rouco, não podendo mais controlar a revolta. “Um tiro! Um tiro acabar com uma vida!”, pensava.

Alguns conhecidos seus tentaram acalmá-lo e ele foi tomado, de repente, por uma coragem estranha: queria acompanhar a perícia.

Os policiais andavam em volta do filho dele, analisando tudo. Perguntavam às pessoas se haviam testemunhado o crime. Algumas contaram que os garotos discutiram por causa de uma partida de fliperama e um tal de Bila sacou um revólver, disparando contra Klébson.

Cada palavra que ouvia deixava Seu Joaquim mais revoltado. Há vários dias aquele bando de arruaceiros ameaçava seu filho, não sabia por quê. Dera-lhe conselhos para que não brigasse com eles. O garoto era teimoso. Olha aí o resultado...

Depois que a perícia foi concluída, uns homens de jaleco branco removeram o cadáver e o puseram no gavetão da viatura para levá-lo ao Instituto Médico Legal. Seu Joaquim viu o boné do filho, sujo de sangue, ficar no asfalto. Pegou-o como a um símbolo daquela existência que se acabava tão rápido. Pensou nos seus dezesseis anos, quando a vida ainda era cheia de mistérios a serem descobertos: amores, responsabilidades... Agora, mal têm doze anos e já querem ser maiores que os adultos. Que erro terá cometido?

Com o filho, Seu Joaquim enterrou o sonho de ter netos, vê-los crescidos. Eles nem nascerão. Mas a maior perda era a do cotidiano. Nunca mais o filho lhe consertará a bicicleta, na revisão que fazia todo sábado à tarde. Nem jogarão futebol juntos nas manhãs de domingo. Nada. “Fliperama... Um tiro.” E tudo acabou. O seu único filho, assassinado, levou para o túmulo a sua esperança e a sua fé.

Três dias depois, saiu para trabalhar com o boné do garoto na cabeça e uma marmita com comida no bagageiro da bicicleta. Não virá mais almoçar em casa. Qualquer hora pode encontrar o desgraçado que atirou em seu filho e querer se vingar.

(Do meu livro OUTRO DIA A GENTE SAI, publicado em 2004)

sábado, 4 de março de 2006

ABSOLUTAMENTE FELIZES


Luciano Serafim 

Eu não acredito em destino; me parece super absurda a tese de que todos os acontecimentos da nossa vida já estão programados para ocorrer, desde o instante em que o espermatozóide fecunda o óvulo e nos dá uma existência. É imbecil crer nessa maluquice! Onde fica, então, o sagrado livre-arbítrio? Vamos, seu padre, me diga! Porque eu necessito de uma explicação plausível para compreender aquela tragédia! Sei que acidentes acontecem, mas eu não aceito tamanha injustiça! Rogério não merecia tal castigo. Nem eu, pois o amo muito, de todo meu coração.

Viajamos na sexta-feira, à boquinha da noite, logo após o expediente. Busquei Rogério na firma; a bagagem pro feriadão estava pronta há dois dias, e de lá ele assumiu o volante. Em trajetos longos, como a descida de Sampa ao Guarujá, não me arrisco a dirigir. Não que eu tenha medo, apenas sou hiper cautelosa, sempre.

Cantarolávamos o hit do verão tocado no rádio e nem nos irritamos com a lentidão do tráfego. Rogério imitou o refrão da música, olhando-me com malícia:

Lourinha louca
Loura maluca
Teu rebolado
Me deixa doido
Alucinado

Beijei-o, encantada. Os aplausos de uns adolescentes, na van ao nosso lado, me encabularam. Pensei em fechar a janela. Não o fiz porque seria muito grosseiro de minha parte. Acenamos uns tchauzinhos e recebemos assobios e beijos soprados na mão — um show! Imagine o senhor, padre, a algazarra que aquela garotada aprontaria se presenciasse a minha tragédia. Sim, porque a situação foi meio cômica, apesar de tudo.

Chegamos à casa pouco depois das nove horas; ainda pude assistir o último capítulo da minha novela favorita... Indisposta para cozinhar, logo após o final feliz na telinha trocamos de roupas e fomos a pé jantar num restaurante charmoso. O ambiente tranqüilo, a boa música ao vivo, os camarões ao molho rosé e o vinho branco, suave... Tudo conspirava para que aquela fosse mesmo uma noite inesquecível...

Voltamos abraçados. No caminho, eu arrastei Rogério para a orla. Andamos descalços pela areia, e como não havia gente por perto, nos despimos e mergulhamos na água fria... Uma delícia!... Eu sei, padre, que é atentado violento ao pudor... Mas a praia estava deserta... E esse foi o nosso azar! Porque Rogério me excitou demais e caímos na areia... O tesão ardendo em nossas entranhas... Ai, padre... Rogério me possuiu feito um verdadeiro garanhão no auge do cio... Nossa!... Até hoje me arrepio, só de lembrar, veja... Desculpe... Pois então... Eu estava lá, embaixo dele, agarrada aos seus ombros, quando Rogério gritou... Um urro bestial, que sem sombra de dúvida atravessou o Atlântico e foi ouvido na África... Fiquei super orgulhosa, na hora, por ele ter desmaiado em meus braços... Mas aí senti algo quente jorrando entre nossas coxas, e logo notei que não podia ser esperma... Quando saí de baixo do Rogério, vi que era sangue o que esguichava de sua virilha... Desesperada, catei a camisa dele e tentei estancar aquele riacho quente, viscoso, rubro... Ai, ainda me dá vontade de chorar... Berrei por ajuda e graças a Deus, um guarda veio nos socorrer...

Rogério ficou dois meses no hospital... A esposa dele não permitiu nem que eu o visse pela vidraça... Ao receber auta, meu amado ganhou também o divórcio que nós dois tanto queríamos... Estamos vivendo juntos, praticamente casados, porque ainda não podemos casar no civil... Só quando mudarem meu sexo para feminino na carteira de identidade...

Acontece, padreco querido, que Rogério não tem mais uma parte do pênis... O caranguejão comeu metade lá na praia... E o que sobrou não é suficiente pra alguém fogoso assim como eu...

Que tragédia horrível, padre! Agora me diga: eu mereço tamanha privação? Meu destino é sofrer? Logo agora, que enfim consegui fazer a bendita operação, vou ter que reverter tudo, só pra manter meu casamento? Isso não é justo comigo... Tão sofredora desde menininho...