sexta-feira, 26 de setembro de 2008

VERNÁCULOS

Luciano Serafim


— É foda mesmo!
— Que foi?
— Nesse dicionário não tem o significado da palavra foda.
— Como é que é?
— Fo-da. Esse dicionário chinfrim não trás o que é.
— Todo mundo sabe isso.
— Mas todo bom dicionário deveria esclarecer mais a respeito.
— Pra quê?
— Nem tem o verbo... E olha só: tem fedor, mas não tem foder.
— Ah, acho que eles pegam as palavras mais importantes, mais faladas e escritas... Sei lá... Deve ser por isso que não tem foda.
— Mas foder é mais importante que fedor.
— Aí depende.
— Depende do quê?
— Do fedor nas partes... Como é mesmo o nome?
— Púdicas.
— Não, mané... Pudicas.
— O acento é no I?
— Não! Nem no U nem no I!... Uia!... Acento no U parece mais é pau no...
— No seu, babaca!
— Ah, vá se lascar!
— Sozinho não dá. Só a dois. Ou a três... De quatro...
— Vem com as suas viadagens... Te dou uma porrada! 
— Bem que você curte... Esporrada!
— Pára com isso!... Vê aí se tem lasca.
— Peraê... Tem. É um fragmento fino e longo; fatia; talhada. E lascar é sinônimo de fender-se.
— Analisando bem a fundo, foder é o mesmo que lascar, já que fender-se...
— Ê, não viaja, pô!
— Analisando... Alisando o...
— Porra, que mentezinha poluída essa tua, hein!
— Mente poluída, a minha?!
— Só pensa besteira! É dar corda que tu já engata uma sacanagem na outra!
— Dou nada não, mano!
— Ó aí! Não tô falando?
— É, mas não sou eu que tô procurando o significado de foda em dicionário nenhum...
— Meu interesse é meramente científico, zé-mané! Já procurei nuns quatro e ainda não achei; nem nesse, o maior de todos, cem mil e tantas páginas, nada de foda. Nem foder.
— Sei bem qual é o seu interesse... Cara, isso todo mundo sabe o que é, ou pelo menos tem uma vaga idéia, um conceito próprio.
— É... Vai ver é por isso mesmo que não tem no dicionário... A tal oralidade, que passa de geração pra geração... 
— Pra que você quer uma definição alheia, tão... Científica?
— Cala a boca, pô!... Peraê!... Oralidade... Felação!... Aê! Felação tem! E é praticamente a mesma coisa, o ato em si!
— Legal... E você finalmente vai comer a sua namorada?
— Cacete! Não avacalha minha pesquisa!
— Ela também parece que é cabaço, que nem tu.
— Te dou já uma porrada nesses dentes! Aí você vai ficar de lábio inchado, que nem o meu!
— Ih, cara, nem tinha reparado... Que foi isso no teu beiço? Lambeu colméia?
— Mané! Eu quero saber mais sobre os palavrões porque minha vó, já caduca, tadinha, me deu o maior tapão, ontem. Xinguei minha irmã durante o jantar, aí a vó, que há quase um mês não falava nada, naqueles ataques de mudismo dela, tacou a mão na minha boca e desatou o maior sermão. Fiquei puto de dor, mas feliz por ela ter voltado a falar. Aí me encuquei com esse troço de xingamento, palavrão...
— É mutismo, o correto; não mudismo. Minha tia fonoaudióloga me corrigiu uma vez. Mu-tis-mo.
— Tá, carai, tá!... Olha que curioso: a palavra cu, por exemplo. Chamar duas letrinhas de palavrão. Logicamente, é um exagero; não é nada se comparada com inconstitucionalissimamente. Mas é o significado que torna elas interessantes. Eu vou estudar isso mais a fundo, sacou?
— O correto é as torna.
— Ah, cala essa boca, ô!
— Gramática cai no vestibular. Acho bom você estudar mesmo. Até fundir a cuca... Senão vai se foder sem cuspe e muito menos beijim na boca... Ou na nuca!
— Fundir... Fender... Veja que legal... Trocando-se apenas duas letras, as palavras têm significados totalmente opostos...
— Chega! Quem vai se ferrar sou eu! Isso é mesmo muito complicado!
— Ferro... Forro...
— Caralho, meu! Larga esse dicionário!

(Do meu próximo livro de contos, cujo título provisório é: "PRIMEIRA SALA SUBINDO A ESCADA")

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

POLÍTICO QUE PROMETE MUNDOS E FUNDOS, ACABA AFUNDANDO A NOSSA VIDA!

Luciano Serafim

Depois de todos os episódios deploráveis da política brasileira nos últimos cinco anos, eu tinha simplesmente decidido que nunca mais na minha vida votaria em filho-da-p(...) nenhum... Que jamais daria um voto meu a alguém novamente, nem para escolher líder de sala de aula na faculdade. O que acontece na política, no meu ver de pobre-coitado assalariado, não é só coisa de novela, não. É de filme de gângster, mafiosão mesmo! Tamanha era a minha raiva e desilusão, que votei nulo no primeiro turno da eleição de 2006 e nem fui votar no segundo turno.

Pois muito que bem (como dizia sinhá Xica da Silva, na memorável novela da Rede Manchete)... As coisas mudam, graças à natureza humana!

Ontem, decidi assistir ao horário eleitoral, para ver se algum candidato me convencia a voltar a votar. E um filho-da-mãe (uma boa mãe) obteve sucesso.

Analisei o discurso dos três candidatos a prefeito em Dourados, para ver o que cada um deles prometia. Sim, porque todos os eleitores já estão P da vida com político que promete e depois de eleito não cumpre. E o candidato que me convenceu a votar nele foi um que mostrou que as promessas de um outro para a área da saúde (manter os postos atendendo 24 horas por dia) eram inconsistentes, dificílimas (se não impossíveis) de se cumprir. Que depois das 22 horas, quem precisa de atendimento de emergência já tem os hospitais aos quais deve se dirigir e que para manter os postos atendendo dioturnamente (ó, palavrão difícil que a politicada tanto curte) não haveria médicos especialistas suficientes.

Daí eu fiquei pensando cá comigo (como diz a minha avó, dona Enedina Serafim de Araújo, 83 anos bem vividos): “Se um infeliz promete o que não tem condições de cumprir, ele está no mínimo mal-intencionado para com a população!”

Ou seja: quem promete mundos e fundos sem poder cumprir, acabará afundando a prefeitura e conseqüentemente a vida dos habitantes da cidade.

É um conselho que quero deixar a quem está indeciso, furioso, e pensa em votar nulo: preste atenção no que os candidatos estão prometendo, analise se existem condições para que essas promessas sejam cumpridas.

Para mim, a partir de agora esse será o meu parâmetro para votar em alguém, porque votar nulo, também, é anular a si próprio, é desperdiçar o seu mísero poder de decisão como cidadão, que é o seu voto.

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