terça-feira, 7 de outubro de 2008

A epifania do populacho

Luciano Serafim*

A eleição de Ari Artuzi para a Prefeitura de Dourados era dada como inevitável e acabou se confirmando, com cerca de 50% dos votos válidos.

Durante a campanha, percebia-se nitidamente que Artuzi era o candidato do povão pouco instruído, Wilson Biasotto o da universidade e da classe média, e enquanto Murilo Zauith, o dos ricaços. Portanto, era inevitável que Ari “ganhasse” a eleição e o motivo é óbvio: existem mais pobres do que ricos não só em Dourados, como em todo o Universo (sejamos logo exagerados).

Artuzi conquistou o coração e os votos do povão justamente por conta de sua política “assistencialista”, como dizem — com ar de repulsa — os mais “politizados”. Quem condena as pessoas que votam por gratidão por um “favor” recebido, certamente nunca foi socorrido numa hora de desespero. Ao longo de toda a sua vida política, o deputado estadual e agora prefeito-eleito de Dourados socorreu muita gente em momentos de extrema necessidade. E o boca-a-boca do povo é a melhor propaganda para tudo. Estão aí os resultados conquistados por ele: eleito em 2000 para a Câmara Municipal de Dourados (quinto vereador mais votado); em 2002, 6.821 votos o elegeram deputado estadual e em 2006 foi reeleito com 36.960 votos (à frente de políticos com anos de tradição, como Londres Machado).

O que fez de Ari Artuzi esse fenômeno? O seu assistencialismo barato, ao qual o povo agradeceu com votos. Barato porque ele atendia as necessidades mais básicas, como serviços de ambulância e distribuição de remédios, benefícios pelos quais todos pagamos através dos impostos exorbitantes e dos quais só usufruímos após filas e mais filas. Atendendo a essa demanda, ele mostrava que muitas vezes as coisas não funcionam bem for falta da famigerada “vontade política”, enquanto a vontade, ou melhor: as necessidades básicas do povo eram constantemente aviltadas.

Mas vivemos uma democracia e temos o voto para nos vingar e fazer justiça com os próprios dedos.

Há séculos os pobres são oprimidos e de vez em quando surge um “salvador”. Jesus Cristo, Robin Wood, Luiz Inácio Lula da Silva e agora Ari Artuzi.

O povão passa a vida inteira sofrendo privações de toda espécie. Ter uma casa, um emprego, comida na mesa, ser bem atendido no posto de saúde, ter creche (galpão, CEIM ou seja lá que nomenclatura receba) e escola... Tirar o pé da lama, com asfalto na porta de casa... Comprar um carro, uma moto ou bicicleta... Viajar pra Paris ou pra Conchinchina... Ser advogado, médico, artista famoso... Etc, etc, etc, etc, etc... O diabo a quatro! Cada ser humano tem seu sonho, mas para os pobres é sempre mais difícil realizá-los e por mais que se esforcem, ter uma “vida boa” parece sempre distante, impossível... Estão sempre perseguindo os malditos amanhãs que nunca chegam!

Então, quando um pobre vê “vencer na vida” alguém da sua mesma condição social, que também foi trabalhador e comeu o pão que o Diabo amassou, ele se enche se esperança. É como se forças ocultas mostrassem que se aquele fulano que já foi ferradinho como ele conseguiu “chegar lá”, ele também conseguirá um dia realizar seus sonhos. Ele se sente reconfortado, passa a acreditar que as coisas vão sim melhorar, que ele terá tudo de bom que merece.

Foi assim com a eleição de Lula para presidente em 2002 e está sendo assim com a de Ari Artuzi para prefeito de Dourados.

Agora é o melhor momento na campanha eleitoral, em que povo bate no peito, orgulhosamente, declarando: “Eu votei nele!” Agora o povo se sente no poder. É a sua vingança contra o “sistema” (como dizem as galeras do curso de História).

O duro é que esses momentos de êxtase coletivo duram pouco. Os pobres são oprimidos há séculos e permanecerão sendo. É assim que a máquina do mundo funciona. Ninguém nos salvará!

Não trabalhem, não; pra ver o que acontece...