sexta-feira, 19 de dezembro de 2008



"Curumim de Asfalto", meu novo livro, já está à venda em diversas bancas de jornais e na Companhia dos Livros, em Dourados. Confira abaixo um trechinho:

"Quando ela, a Leila, me enche muito (ela enche a
paciência de todo mundo, até do patrão), eu penso em dar
uma lição nela pra ela me respeitar. Aí, fico excitadão. Isso
deve ser sinal de tara, acho que sadomasoquismo. É. Um
velho alemão.. Ou era austríaco? Sei lá! Um tal de Freud.
Parece que explica isso num daqueles livros que o professor
de filosofia indicou pra gente ler. Ele mistura filosofia
com psicologia; as aulas às vezes são legas e outras, um saco.
Mudou um monte de coisas na escola, de uns tempos pra
cá. Agora a gente estuda isso, filosofia. Por causa de uma
lei que manda os professores ensinarem com novos projetos
pedagóticos. Góticos mesmo. Tá tudo mais difícil, rápido,
a gente mal aprende as coisas. Ele é doido, o professor,
meio debiloidão. E o velho, psicanalista é o que ele é... Ou
foi? Foi, porque já morreu. Parece que também era meio
pirado. Li que até cocaína o infeliz cheirava. Naquela época
já usavam esses troços.
O Decão, o cara lá do bairro que... Que vende essas
coisas... Me chamou pra trabalhar com ele. Entregar
trouxinhas prontas em uns endereços, aqui na cidade mesmo.
Era uma grana boa, dois salários mínimos por mês. Eu
ganho só um, menos o desconto que vai pra manter a Patrulha.
Fiquei tentado a aceitar aquele trampo, por causa
do dinheiro. Mas a gente ouve cada história que dá medo.
Tem uns carinhas que estudaram comigo quando eu era
mais novo, no primário, e agora trabalham pro Decão. Eu
não tenho coragem. Já pensou o desgosto da minha mãe,
da minha família toda e do pessoal da firma e da Patrulha?
Falei pra ele que aquilo não é a minha praia. (Nunca fui
numa praia. Será que é mesmo azul, como o meu uniforme?)
Eu não falei daquele jeito, ia parecer desrespeito. Falei:
“Valeu, cara. Mas já tô na Mirim.” Ele bateu a mão no
meu ombro e disse: “Segue firme, maninho.” Quando tá
misturado com as outras pessoas do bairro, nem parece o
bandidão que todos falam. Não foi ele quem me contou o
que eu teria de fazer, nem o salário, se eu aceitasse; ele só
convidou. Quem contou qual o trampo e o salário foi o
Bila, que estudava comigo. O Bila que não desconfie, mas
eu me afastei dele. Quando posso, evito falar e até passar
perto. Dizem que foi ele quem matou o Klébson, filho da
Dona Emilene e do Seu Joaquim. Um monte de gente viu.
E a gente era amigo, jogava fliperama junto e tudo. Coitado
do Klébson!
É. Eu sou meio frouxo pra esses negócios, admito.
Prefiro me ferrar com a Leila e o pessoal todo da firma
pegando no meu pé. Sinto que gostam de mim. Meu serviço
é fácil e ainda tem o computador. Então, não tá tão ruim."